{"id":12208,"date":"2023-03-09T13:08:26","date_gmt":"2023-03-09T13:08:26","guid":{"rendered":"https:\/\/dei.fe.up.pt\/dev\/?p=12208"},"modified":"2023-03-09T13:31:00","modified_gmt":"2023-03-09T13:31:00","slug":"acesso-aberto-o-slow-science-e-o-fast-science","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dei.fe.up.pt\/dev\/acesso-aberto-o-slow-science-e-o-fast-science\/","title":{"rendered":"Acesso aberto, o \u201cslow science\u201d e o \u201cfast science\u201d"},"content":{"rendered":"<p>\u201cPoder\u00e1 a divulga\u00e7\u00e3o de Ci\u00eancia ser um neg\u00f3cio rent\u00e1vel? Nunca como agora a comunidade cient\u00edfica sentiu tanta press\u00e3o na valida\u00e7\u00e3o e legitima\u00e7\u00e3o do que \u00e9 produzido. Poder\u00e1 a solu\u00e7\u00e3o passar pelos reposit\u00f3rios de Acesso Aberto?\u201d<\/p>\n<p>S\u00e3o quest\u00f5es colocadas pelos docentes do DEI, <strong>Carlos Baquero, Jo\u00e3o Cardoso, Pedro Diniz <\/strong>e<strong> Rui Maranh\u00e3o<\/strong>, e que abrem o <strong>artigo de opini\u00e3o<\/strong> recentemente publicado no <strong>Expresso<\/strong> e que abaixo transcrevemos:<\/p>\n<p>\u201cA publica\u00e7\u00e3o de artigos cient\u00edficos em confer\u00eancias e revistas de refer\u00eancia \u00e9 uma das atividades mais importantes para a divulga\u00e7\u00e3o e avan\u00e7o da ci\u00eancia e do conhecimento. Recentemente a FCCN, via B-On (biblioteca do conhecimento online), estabeleceu mais um <a href=\"https:\/\/www.b-on.pt\/noticias\/publicacao-em-acesso-aberto-primeiros-acordos-transformativos-b-on-ja-em-vigor\/\">protocolo<\/a> no sentido de criar condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis para a comunidade cient\u00edfica nacional publicar artigos cient\u00edficos em Acesso Aberto. A publica\u00e7\u00e3o em Acesso Aberto tem a vantagem de permitir a leitura de artigos sem custos de subscri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto no sistema cl\u00e1ssico de publica\u00e7\u00e3o, os custos eram normalmente cobertos pelas institui\u00e7\u00f5es ao subscreverem revistas cient\u00edficas para uso dos seus investigadores, normalmente podendo os mesmos optar por Acesso Aberto atrav\u00e9s de custos adicionais, no sistema \u00fanico de Acesso Aberto estes custos s\u00e3o transferidos para o momento de publica\u00e7\u00e3o, e usualmente cobertos por um projeto de investiga\u00e7\u00e3o afeto aos autores. Estes protocolos visam reduzir estes custos, usualmente com descontos sobre a&nbsp;taxa de processamento de artigos.<\/p>\n<p>Sem entrarmos na pol\u00e9mica sobre o lucrativo neg\u00f3cio das editoras especializadas em ci\u00eancia, \u00e9 f\u00e1cil observar que houve uma transfer\u00eancia do momento em que as editoras s\u00e3o financiadas. No sistema cl\u00e1ssico os autores submetiam os seus trabalhos, estes eram avaliados por outros cientistas, melhorados e, sendo aceites, eram publicados nas revistas, sem nenhuma transa\u00e7\u00e3o que envolvesse o autor (eram comummente as bibliotecas que assumiam estes custos).<\/p>\n<p>No sistema de Acesso Aberto, que genericamente exige as tais taxas de processamento, o autor tem de garantir financiamento depois do artigo ser aceite para que este seja publicado. Embora em teoria n\u00e3o se esteja a pagar pela aceita\u00e7\u00e3o do artigo, e tal s\u00f3 dependa da sua qualidade, os incentivos econ\u00f3micos mudam um pouco o panorama, pois pode passar a haver mais press\u00e3o sobre as editoras para maximizar o n\u00famero de artigos publicados.<\/p>\n<p>Apesar deste risco, as editoras t\u00eam interesse em preservar o seu prest\u00edgio e o prest\u00edgio das revistas que publicam. Ao selecionarem um n\u00famero reduzido de artigos da m\u00e1xima qualidade, prestam um importante papel de sele\u00e7\u00e3o editorial aos seus leitores, \u00e0s pr\u00f3prias \u00e1reas cient\u00edficas, e melhoram o potencial impacto de cada artigo. V\u00e1rias revistas cl\u00e1ssicas, suportam ambas as modalidades de publica\u00e7\u00e3o, sendo o Acesso Aberto apenas uma op\u00e7\u00e3o e podendo as publica\u00e7\u00f5es aceites ser publicadas sem custos para o autor.<\/p>\n<p>Resultados publicados em revistas de topo, como a <em>Science<\/em> e <em>Nature<\/em>, t\u00eam imensa visibilidade quer na comunidade cient\u00edfica quer, por vezes, na sociedade em geral. Contudo, sendo estas publica\u00e7\u00f5es muito seletivas, exigem aos autores v\u00e1rios meses de prepara\u00e7\u00e3o, antes da pr\u00f3prio envio do artigo, e de melhoramento e trabalho adicional significativo ao longo do exigente processo de revis\u00e3o pelos pares. Numa sociedade de \u201cfast food\u201d&nbsp;nem sempre parece haver tempo para estes morosos processos de \u201cslow science\u201d.<\/p>\n<p>Na \u00faltima d\u00e9cada, junto com o crescimento da modalidade de Acesso Aberto, tem tamb\u00e9m crescido a oferta de revistas de Acesso Aberto que prometem tempos de revis\u00e3o pelos pares muito curtos, tornando-se assim muito desej\u00e1veis para investigadores j\u00fanior desejosos de melhorar os seus perfis acad\u00e9micos. Pegando no prov\u00e9rbio \u201cDepressa e bem, n\u00e3o h\u00e1 quem\u201d podemos observar que h\u00e1 limites para os ganhos de efici\u00eancia que se podem obter quando os revisores s\u00e3o usualmente outros cientistas, n\u00e3o remunerados pela editora, com escasso tempo dispon\u00edvel, em particular quando s\u00e3o cientistas de renome.<\/p>\n<p>Nestas editoras, a obten\u00e7\u00e3o de efici\u00eancia levam invariavelmente a corpos editoriais com v\u00e1rias centenas de membros, habitualmente pouco conhecidos, em contraste com a usual dezena de nomes reconhecidos pela comunidade e com um papel claro na sele\u00e7\u00e3o de artigos em revistas de refer\u00eancia.<\/p>\n<p>Outros mecanismos para assegurar um modelo de neg\u00f3cio lucrativo parecem assentar na cria\u00e7\u00e3o de in\u00fameras edi\u00e7\u00f5es especiais por convite e no convite massivo a v\u00e1rios cientistas para a prepara\u00e7\u00e3o destas edi\u00e7\u00f5es; muitas vezes em \u00e1reas que n\u00e3o dominam ou nas quais n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos. Os cientistas t\u00eam mesmo sido aliciados por ofertas e redu\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a custos de Acesso Aberto, uma estrat\u00e9gia que garante o envolvimento de muitos e a abrang\u00eancia necess\u00e1ria para um modelo de neg\u00f3cio lucrativo. Todos estes fatores diminuem e muito a perce\u00e7\u00e3o de qualidade dos artigos selecionados.<\/p>\n<p>Esta diminui\u00e7\u00e3o da qualidade de publica\u00e7\u00e3o tem sido recentemente discutida noutros pa\u00edses europeus, com abordagens algo d\u00edspares. Os potenciais impactos destas pr\u00e1ticas na qualidade da ci\u00eancia foram discutidos num&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.kth.se\/en\/biblioteket\/nyheter\/vi-vill-ha-fri-forskning-men-den-kommer-med-ett-ansvar-1.1201612\">artigo<\/a>&nbsp;da KTH Royal Institute of Technology, Su\u00e9cia; j\u00e1 na nossa vizinha Espanha tem sido&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.eldiario.es\/sociedad\/science-nature-investigadores-espanoles-dejan-revistas-tradicionales-editoriales-cuestionadas_1_9842469.html\">discutida<\/a>&nbsp;a crescente migra\u00e7\u00e3o para meios de publica\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. Nalguns pa\u00edses, como por exemplo na Su\u00ed\u00e7a e Reino Unido, estes canais de difus\u00e3o de resultados cient\u00edficos s\u00e3o simplesmente ignorados ou mesmo desconhecidos. Nota-se mesmo da parte de institui\u00e7\u00f5es de refer\u00eancia, uma postura de rejei\u00e7\u00e3o em que investigadores com extensiva ou significativa parte das suas publica\u00e7\u00f5es nestes canais n\u00e3o s\u00e3o levados a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o seja alheia a este fen\u00f3meno de publica\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de resultados pouco amadurecidos, a observa\u00e7\u00e3o de que cada vez h\u00e1 menos impacto da investiga\u00e7\u00e3o na transforma\u00e7\u00e3o da sociedade, tal como documentado num recente&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/d41586-023-00183-1\">artigo<\/a>&nbsp;da <em><a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/d41586-023-00183-1\">Nature<\/a><\/em>.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e massificada por via destas editoras tem sido demasiado tentadora para cientistas em in\u00edcio de carreira, para uma comunidade cient\u00edfica sujeita a imensa press\u00e3o competitiva e onde a publica\u00e7\u00e3o regular \u00e9 essencial para o desenvolvimento da carreira. Em Portugal, podemos constatar que o crescimento da propor\u00e7\u00e3o de publica\u00e7\u00f5es em Acesso Aberto, na \u00faltima d\u00e9cada (linha negra), n\u00e3o teria ocorrido se fosse descontado o efeito das publica\u00e7\u00f5es em duas grandes editoras de publica\u00e7\u00e3o acelerada (linha vermelha mostra como seria a propor\u00e7\u00e3o sem essas publica\u00e7\u00f5es que designamos por Acesso Aberto Acelerado). O efeito seria ainda maior se fossem descontadas outras revistas de menor dimens\u00e3o e associadas a pr\u00e1ticas que se poder\u00e3o mesmo classificar de predat\u00f3rias.<\/p>\n<p>Se por um lado o Acesso Aberto pode ser positivo para uma melhor divulga\u00e7\u00e3o dos resultados de investiga\u00e7\u00e3o, tal n\u00e3o deveria ser \u00e0 custa da diminui\u00e7\u00e3o de qualidade das publica\u00e7\u00f5es. Tal como um pouco de <em>fast food<\/em> pontual n\u00e3o tem grande impacto na nossa sa\u00fade, tamb\u00e9m parece razo\u00e1vel uma certa dose deste tipo de <em>fast science<\/em>. Nem sempre toda a investiga\u00e7\u00e3o produz os resultados que os autores gostariam; h\u00e1 competi\u00e7\u00e3o e por vezes outras equipas publicam primeiro.<\/p>\n<p>Contudo, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel, tal como com uma dieta primariamente de <em>fast food<\/em>, que o grosso das publica\u00e7\u00f5es de um dado investigador, equipa ou institui\u00e7\u00e3o comecem a ser, por norma, deste tipo. Muitos artigos que poderiam alcan\u00e7ar revistas de topo acabam por n\u00e3o realizar todo o seu potencial ao serem direcionados para estes canais de publica\u00e7\u00e3o r\u00e1pida.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a exist\u00eancia de reposit\u00f3rios de pr\u00e9-publica\u00e7\u00e3o, como o arXiv e medRxiv, permitem alcan\u00e7ar uma divulga\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e aberta sugerindo mesmo que estes canais (e n\u00e3o os de publica\u00e7\u00e3o em Acesso Aberto Acelerado) fossem usados para esse mesmo prop\u00f3sito permitindo assim aos autores refinar os seus artigos e elevando mesmo a sua qualidade (em termos de extens\u00e3o de dados e\/ou mais s\u00f3lida fundamenta\u00e7\u00e3o das conclus\u00f5es) pela sua publica\u00e7\u00e3o noutros canais com mais demoradas fases de avalia\u00e7\u00e3o por pares.<\/p>\n<p>Pior do que o desenvolvimento de um curr\u00edculo r\u00e1pido e a metro, a abordagem atualmente vigente \u00e9 ela pr\u00f3pria contraproducente para os autores, j\u00e1 que n\u00e3o permite aos pr\u00f3prios realiza\u00e7\u00e3o do seu m\u00e1ximo potencial e pode, a longo prazo, ter impacto negativo nas suas carreiras. Uma pedra basilar do sistema \u00e9 a liberdade individual de investiga\u00e7\u00e3o; os autores s\u00e3o soberanos nas suas escolhas de alvos de publica\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m \u00e9 importante estar atento \u00e0 exist\u00eancia de revistas com estrat\u00e9gias mais massificadas e potencialmente predat\u00f3rias. H\u00e1 20 anos, era relativamente simples distinguir as boas revistas das revistas com pr\u00e1cticas que se poder\u00e3o classificar como predat\u00f3rias, sendo estas \u00faltimas muito artesanais e pouco profissionais. Atualmente a fronteira \u00e9 muito mais t\u00e9nue, em parte fruto de modelos de neg\u00f3cio extremamente lucrativos e muito bem-sucedidos.<\/p>\n<p>Parece-nos por isso muito importante que a comunidade cient\u00edfica nacional evite o dom\u00ednio do \u201cfast science\u201d, nomeadamente evitando que as novas gera\u00e7\u00f5es de cientistas caiam na tenta\u00e7\u00e3o do f\u00e1cil aliciamento destes modelos de neg\u00f3cio que gravitam na ci\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2023-02-21-Acesso-aberto-o-slow-science-e-o-fast-science-cde281f4\">Este artigo de opini\u00e3o foi publicado no Expresso a 21 de fevereiro de 2023 (09:33).<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cPoder\u00e1 a divulga\u00e7\u00e3o de Ci\u00eancia ser um neg\u00f3cio rent\u00e1vel? Nunca como agora a comunidade cient\u00edfica sentiu tanta press\u00e3o na valida\u00e7\u00e3o e legitima\u00e7\u00e3o do que \u00e9 produzido. 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