Candidata:
Juliana Vieira Valentim
Data, Hora e Local:
09 de outubro de 2026, às 14h00, na Sala de Atos da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto
Presidente do Júri:
Doutor Pedro Nuno Ferreira da Rosa da Cruz Diniz, Professor Catedrático do Departamento de Engenharia Informática da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto
Vogais:
Doutora Leonor Graciela Natansohn, Professora Associada da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, Brasil;
Doutor Paulo Nuno Gouveia Vicente, Professor Associado com Agregação do Departamento de Ciências da Comunicação da Faculdade Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa;
Doutora Maria João Lopes Antunes, Professora Associada do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro;
Doutora Carla Sofia Marques da Silva, Professora Associada do Departamento de Ciências da Educação da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto;
Doutor Pedro Jorge Couto Cardoso, Professor Auxiliar do Departamento de Design da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (Orientador).
A tese foi coorientada pelo Doutor António Fernando Vasconcelos Cunha Castro Coelho, Professor Associado com Agregação do Departamento de Engenharia Informática da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, e pelo Doutor Ricardo Manuel Coelho de Melo, Investigador Sénior da equipa de Human-Centred Design da Fraunhofer Portugal AICOS.
Resumo:
Nas últimas décadas, a consolidação da internet corporativa e o poder das big tech reconfiguraram, em escala global, os circuitos de circulação de informação, a mediação do trabalho e a produção de subjetividades, intensificando formas de extração de valor centradas em dados, atenção e trabalho imaterial. No Sul Global, tais dinâmicas tendem a aprofundar dependências tecnológicas e assimetrias históricas, enquanto a conectividade permanece frequentemente narrada como um vetor universal de desenvolvimento e inclusão.
Situada no contexto brasileiro, esta tese examina como redes comunitárias e autônomas, infraestruturas feministas e tecnologias sociais disputam os sentidos da conectividade, do trabalho e da governança digital, deslocando-os de enquadramentos tecnicistas e universalistas para práticas territorializadas orientadas por autonomia, cuidado e justiça social.
O objetivo central desta tese consiste em compreender as transformações na política da tecnologia quando esta é articulada a partir de epistemologias feministas, decoloniais, negras e comunitárias, bem como analisar de que modo tais experiências reconfiguram narrativas e práticas de apropriação tecnológica ao conceber a internet como território em disputa e espaço de poder, a partir das vivências e materialidades dos próprios territórios.
Metodologicamente, adotou-se uma abordagem qualitativa, feminista e decolonial, combinando trabalho de campo multissituado com entrevistas, observação participante e análise de documentos e materiais produzidos pelas iniciativas. A análise foi conduzida a partir de uma perspectiva discursivo-material, articulando significados, infraestruturas e formas de organização sociotécnica.
Os resultados indicam que as experiências examinadas não se limitam a “soluções” para as desigualdades de acesso. Elas configuram tecnologias insurgentes: arranjos sociotécnicos que reordenam quem pode definir prioridades tecnológicas, quais escalas importam e quais critérios de sustentabilidade e legitimidade orientam a conectividade e, mais amplamente, o campo da tecnologia digital.
Ao recentrar a reprodução da vida como horizonte analítico e político, essas práticas afirmam a existência incorporada – o corpo e o cotidiano –, bem como afetos, ancestralidade e relações de interdependência entre humanos e mais-do-que-humanos. Desse modo, reinscrevem no campo digital genealogias históricas de resistência coletiva negra, feminista e dissidente, ampliando-as para as disputas contemporâneas em torno da infraestrutura digital, dos direitos digitais e da governança da internet.
Nessa chave, a tecnologia é compreendida como prática relacional atravessada por raça, gênero, sexualidade, classe e território. Assim, a tese contribui para o debate sobre descolonização digital ao demonstrar que outros imaginários sociotécnicos, plurais, situados e coletivos, já estão em curso, oferecendo alternativas viáveis diante do colapso aprofundado pelo capitalismo-colonial na era digital.
Palavras-chave: Autonomia Digital; Comunicação Comunitária; Feminismo Decolonial; Hackfeminismo; Soberania Tecnológica.







