Por Joana Guedes Pinto, SICC, FEUP
A TensorOps, empresa portuguesa de serviços de inteligência artificial fundada em 2023, por Cláudio Lemos (que concluiu o Mestrado Integrado em Engenharia Informática e Computação na FEUP em 2021), anunciou recentemente uma colaboração estratégica com a Armis (adquirida no final de dezembro pela ServiceNow), uma das principais referências globais em cibersegurança. No centro desta parceria está o desenvolvimento de uma nova geração de agentes autónomos capazes de operar em ambientes empresariais complexos e responder, em tempo real, a ameaças cada vez mais sofisticadas.
A colaboração surge num momento particularmente relevante para o setor. Com a crescente utilização de inteligência artificial por agentes maliciosos, os sistemas tradicionais de defesa enfrentam limitações evidentes. A iniciativa conjunta entre a TensorOps e a Armis pretende precisamente responder a este desafio estrutural, reduzindo a distância entre deteção e ação.
“Estamos a assistir a uma mudança radical: os ciberataques já não são executados apenas por hackers humanos, mas por agentes de IA ofensivos utilizados por organizações criminosas e estatais, explica Cláudio Lemos, CEO da TensorOps.”
Um projeto português com impacto global
Apesar de jovem, a TensorOps nasceu com uma ambição clara: construir tecnologia de vanguarda a partir de Portugal. A empresa começou a ser desenhada em 2022, fruto da parceria entre Cláudio Lemos e Gad Benram, e rapidamente adotou um posicionamento orientado para mercados internacionais.
“Desde o primeiro dia, a nossa visão foi muito clara e distinta: queríamos criar um modelo de negócio orientado para a exportação de talento nacional e de serviços de excelência.”
Hoje, essa estratégia traduz-se numa realidade concreta: a grande maioria dos clientes da empresa é internacional, incluindo algumas das maiores organizações tecnológicas do mundo. “A nossa equipa trabalha com 95% de clientes internacionais, trazendo receitas de alto valor para a economia portuguesa.” Este modelo não só valida a competitividade do talento nacional, como reforça o papel de Portugal como fornecedor de engenharia altamente especializada.
A ligação à Armis surgiu de forma orgânica, impulsionada pela reputação técnica e pela rede de contactos da equipa da TensorOps no ecossistema global de cibersegurança. “Tudo começou com uma abordagem direta, baseada na nossa reputação e network.”
“Percebemos imediatamente que era um projeto altamente estratégico porque a Armis (recentemente adquirida pela ServiceNow por 7,75 mil milhões de dólares) opera na vanguarda absoluta do setor, e o desafio propunha criar algo que simplesmente ainda não existe no mercado para as empresas, afirma Cláudio.”
Construir um “exército” de agentes autónomos
No âmbito desta colaboração, a TensorOps está a desenvolver um sistema inovador baseado em múltiplos agentes de inteligência artificial capazes de atuar de forma coordenada. “Estamos a construir um ‘mini exército’ de agentes de IA defensivos e a integrá-los no ambiente proprietário da Armis.”
Ao contrário das soluções tradicionais, baseadas em regras fixas ou modelos reativos, estes agentes introduzem um novo nível de autonomia. “Os Agentes de IA que estamos a desenvolver são proativos e adaptáveis. Eles conseguem avaliar o contexto de uma ameaça em tempo real, raciocinar sobre a melhor estratégia de mitigação e executar ações de forma autónoma.”
Esta abordagem permite responder à velocidade e sofisticação dos ataques modernos, onde a intervenção humana isolada já não é suficiente. O desenvolvimento destes sistemas coloca desafios técnicos significativos, particularmente ao nível da coordenação entre agentes. “Garantir que múltiplos agentes de IA comunicam entre si, partilham contexto de ameaças em tempo real e executam táticas de defesa coordenadas, é um desafio de arquitetura de software e inteligência artificial formidável, explica o CEO da TensorOps.”
Para além da complexidade algorítmica, estes sistemas têm de operar em infraestruturas críticas sem comprometer a continuidade dos serviços, elevando ainda mais o grau de exigência. Para Cláudio Lemos, o impacto desta tecnologia será transversal a todas as áreas das organizações.
A integração de agentes autónomos será tão fundamental para as empresas na próxima década como a transição para a cloud foi na década passada.
Este novo paradigma implicará uma transformação profunda na forma como o trabalho é distribuído entre humanos e máquinas. “As equipas humanas deixarão de estar focadas na execução de tarefas repetitivas, passando a assumir papéis de supervisão, governança e estratégia.”
Portugal como hub de engenharia de IA
A trajetória da TensorOps ilustra também o potencial do ecossistema tecnológico nacional, particularmente na área da inteligência artificial. “Significa provar que o talento nacional está ao nível do melhor que se faz em Silicon Valley, Londres, ou Tel Aviv.”
Para o CEO da TensorOps, o futuro passa por reforçar a aposta em inovação e exportação de conhecimento: “se continuarmos a focar as nossas empresas na exportação de inovação e não apenas na venda de horas de outsourcing barato, temos todas as condições geográficas, económicas e intelectuais para sermos um dos principais motores de Inteligência Artificial na Europa.”
Ainda com os olhos postos no futuro, Cláudio não hesita em destacar o papel determinante da formação na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, para uma boa parte do sucesso hoje alcançado:
“Mais do que linguagens de programação específicas, sinto que a FEUP me ensinou a pensar de forma estruturada, a decompor problemas altamente complexos. Esse mindset de engenheiro é algo que uso no meu dia a dia.”