Por Álvaro Paralta, SICC, FEUP
“É apaixonada por videojogos desde que se lembra. Gosta de ler, dá uns toques na guitarra, mas há uns anos que se tem dedicado inteiramente à Engenharia Informática, que estudou na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Este foi o passaporte para Inês Cardoso, natural do Porto, se mudar para a Polónia, país a partir do qual conversou connosco e onde trabalha como engenheira de software na Google. Numa conversa prolongada, ligámos os dois pontos do globo para conhecer e explorar o seu percurso.
O despertar de uma vocação
Engenharia não foi sempre um caminho óbvio ou uma escolha imediata. Ainda que as áreas de que mais gostava indicassem uma certa tendência – Física, Química, Matemática -, escolher o curso a seguir foi um verdadeiro desafio. Principalmente num período em que o balanço entre dúvidas e certezas não é necessariamente equilibrado. “Estava confusa, mas a dado momento pensei que seguir engenharia informática poderia ser uma boa forma de conseguir fazer videojogos, de que sempre gostei imenso”, lembra.
Durante o secundário, que concluiu na Escola Secundária de Rio Tinto, visitou a FEUP em diversas circunstâncias, incluindo a Semana Profissão: Engenharia. E em todas elas a perceção que teve da faculdade foi a mesma: “é uma escola de gente grande”. Tão grande que foi nela que ingressou, em 2020. “Quando entrei, estávamos em pandemia e acho que isso tornou o meu primeiro ano mais desafiante: por um lado, as aulas eram dadas online, e, por outro, o surgimento de algumas dúvidas sobre se estaria no caminho certo ou não”, explica.
Apesar da ligeira incerteza nesta fase inicial, os próximos cinco anos foram passados naquela que viria a tornar-se a sua segunda casa. Pelo caminho, integrou o Núcleo de Estudantes de Informática da Associação de Estudantes da FEUP (NIAEFEUP) e colaborou na organização do Encontro Nacional de Estudantes de Informática (ENEI), que aconteceu entre os dias 11 e 14 de abril. “Estar no núcleo e organizar eventos deste tipo permite-nos estar em contacto com muitas pessoas, criar novos laços e abrir novas oportunidades – o que é especialmente importante nos primeiros anos de faculdade”.
Estagiou na JumpSeller e explorou uma área diferente – a escrita – no Jornal Universitário do Porto (JUP). Em 2023, ingressou no mestrado, onde percebeu em que área gostaria de se especializar. “Tive uma cadeira de visão por computador que me despertou interesse – aliava a inteligência artificial à imagem; e foi aí que pensei que poderia ser interessante trabalhar numa aplicação desta tecnologia à imagem médica”, recorda.
Em conversa com alguns membros do NIAEFEUP, indicaram-lhe um possível orientador com quem poderia falar para desenvolver um projeto de mestrado na área da imagem médica. E assim foi. “Agendámos uma reunião e ele achou interessante eu querer fazer a minha tese nesta área. Disse logo que podia ser meu orientador”, lembra. E assim foi. Estagiou ainda no INESCTEC e foi monitora no Departamento de Engenharia Informática da FEUP.
Erasmus e o “abrir horizontes”
Em 2024, viveu a sua primeira experiência de mobilidade, na Universidade de Zagreb, na Croácia. “Eu fiz dois Erasmus e tive experiências completamente diferentes. Na primeira, o propósito não foi tanto a parte académica propriamente dita, mas mais a possibilidade de viver sozinha, testar a minha independência. Foi esta experiência que me tirou o medo de ir viver para outro país – que é, de resto, a minha realidade atualmente”, explica Inês.
No ano a seguir, passou ainda pela Universidade de Utrecht, nos Países Baixos, onde desenvolveu a sua dissertação na área de visão por computador. “Este período foi muito importante a nível académico, mas também para perceber uma outra forma de viver. Em Portugal, estamos habituados a ver as pessoas a acordar de manhã, irem trabalhar e regressarem exaustas no final do dia. Lá não. Faz-se tudo mais cedo, o trabalho também acaba mais cedo, e, no final do dia, todos ficam a conviver. Sentia que as pessoas viviam muito mais felizes e aprendi muito com isso”, recorda.
A passagem pelos dois países fê-la refletir sobre o que fazer após a conclusão do mestrado. Ponderou seguir doutoramento, mas o rumo foi outro. Potenciado pelas experiências de mobilidade – afinal, viver sozinha não é tão difícil quanto parecia inicialmente -, no último ano de mestrado candidatou-se a algumas gigantes tecnológicas, com a vontade de aprender o máximo possível e escalar possibilidades de carreira. E entrou na primeira opção da sua lista de prioridades.
O próximo passo foi na Google, na Polónia, onde se encontra atualmente. “O processo de entrevistas foi longo. Tivemos entrevistas que se basearam no desenho de sistemas, em que os conhecimentos da faculdade foram importantes; e entrevistas que consistiram em exercícios de programação competitiva. Aproveito para dizer que iniciativas como o CodeCamp@FEUP são muito importantes, porque já familiariza, desde cedo, os futuros estudantes a este tipo de dinâmicas”, partilha.
“Quando entramos no mercado de trabalho, há uma questão que vejo em muitas pessoas da minha idade: se nos devemos candidatar a uma empresa mais pequena, tipo startup, ou a uma empresa maior. Por um lado, penso que startups oferecem, muitas vezes, maior autonomia, a possibilidade de explorar diferentes caminhos e assumir mais responsabilidades. Por outro lado, as empresas maiores permitem trabalhar em soluções com impacto a uma escala muito maior. Na altura, senti que iniciar o meu percurso numa empresa grande seria uma oportunidade valiosa para aprender com equipas experientes e compreender como se constroem soluções que chegam a milhões de utilizadores.”
O futuro em aberto
Os primeiros tempos na Google foram de adaptação a uma nova realidade. Oito horas de trabalho passaram a ser o novo horário, que teve de ser gerido da melhor forma, na tentativa de replicar o que viveu, por exemplo, nos Países Baixos – “tem de haver planos para aproveitar o tempo depois do trabalho”. De momento, está a contribuir para o desenvolvimento de um produto da Google Cloud, o BigQuery.
“Tenho aprendido imenso e sei que é essencialmente isto o que me motiva a estar aqui. Gosto muito da forma como tratam os colaboradores, porque sinto que promovem um bom balanço entre a vida pessoal e profissional. O edifício onde trabalho tem 31 pisos e cada um tem uma sala de diversão e um piano; temos uma biblioteca, um ginásio, uma sala para colorir e uma com guitarras. É um ambiente muito diferente”, reflete a alumna da FEUP.
Sobre o futuro, as ideias são bem claras: não há impossibilidades. “Eu gosto de pensar que está tudo em aberto. Posso, até, mudar completamente de área, se achar que faz sentido. Quem sabe, abrir um café aos 40, ter uma quinta aos 50. Acho que a minha prioridade de agora, e aquilo que acho que vai pautar o meu futuro, é a vontade de estar onde posso aprender mais, correspondendo sempre aos gostos do momento em que me encontro”.