O avanço da Inteligência Artificial (IA) a um ritmo sem precedentes, está a redefinir profundamente o trabalho dos engenheiros de software, bem como a forma como estes percecionam a sua própria identidade profissional. Esta transformação esteve recentemente em destaque no artigo “AI is creating an identity crises for coders: “I focused on this one thing, and now it doesn´t matter anymore.””da Business Insider, que contou com contributos do Prof. Jorge Melegati, docente e investigador do Departamento de Engenharia Informática (DEI) da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP).
A forma como trabalhamos em engenharia de software está a mudar a passo deste ritmo acelerado. Nos últimos meses, empresas tecnológicas de referência começaram a adotar ferramentas de IA que já escrevem grande parte do código que antes ocupava longas horas dos programadores. O papel destes profissionais passou, muitas vezes, de criadores de código a supervisores de IA, o que faz com que a forma como estes percecionam a sua própria identidade profissional esteja também a sofrer profundas alterações.
Segundo o Prof. Melegati, muitos engenheiros de software escolheram esta profissão pelo prazer de “construir coisas”, de transformar ideias em algo real através do código. É esse ato criativo, e por vezes até artesanal, que alimentou a identidade de gerações de programadores. Agora, ao verem a IA assumir grande parte dessa construção, alguns sentem que “o seu trabalho se está a tornar mais simples e, por consequência, menos gratificante”.
O Professor explica que, historicamente, tarefas como testar e validar software foram vistas como menos prestigiantes do que criar código de raiz. E é justamente para essas tarefas que muitos profissionais estão a ser empurrados à medida que os agentes de IA evoluem. Esta mudança pode gerar desconforto, sobretudo entre aqueles que definiram a sua identidade profissional com base na criação.
Apesar disso, a investigação citada no artigo aponta que o trabalho em engenharia de software não vai desaparecer, vai sim transformar se. As projeções nos EUA mostram que funções ligadas ao desenvolvimento e qualidade de software deverão crescer 15% até 2034, muito acima da média de outras profissões. A exigência será diferente, mas continuará a haver necessidade de engenheiros com pensamento crítico, capacidade de análise e visão sistémica.
Para o Professor, esta transição abre uma discussão fundamental: o que significa ser engenheiro de software quando o código já não é o centro do trabalho? Em vez de afastar a tecnologia, defende que devemos olhar para este momento como uma oportunidade. Ao libertar os profissionais das tarefas mais repetitivas, a IA pode permitir que se concentrem no que realmente importa: compreender problemas complexos; dialogar com utilizadores; pensar soluções; e tomar decisões fundamentadas.
A reflexão trazida pelo Prof. Jorge Melegati lembra-nos que a engenharia não é apenas técnica; é, antes de tudo, humana. E é nesse ponto, na interseção entre tecnologia e significado, que o DEI e a FEUP continuam a marcar presença na investigação internacional.
Foto: Getty Images através do artigo da Business Insider









