Candidata:
Nádia de Sousa Varela de Carvalho
Data, Hora e Local:
06 de julho de 2026, 14:30, Sala Professor Vasco Sá (L119) do DEMec da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto
Presidente do Júri:
Doutor António Fernando Vasconcelos Cunha Castro Coelho, Professor Associado com Agregação do Departamento de Engenharia Informática da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto
Vogais:
Doctor Diemo Schwarz, PhD Researcher of the Institute for Research and Coordination in Acoustics/Music (IRCAM), France;
Doutor Rui Luís Nogueira Penha, Professor Coordenador da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Instituto Politécnico do Porto;
Doutora Sofia Carmen Faria Maia Cavaco, Professora Auxiliar do Departamento de Informática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa;
Doutor António Humberto Sá Pinto, Professor Auxiliar Convidado do Departamento de Engenharia Informática da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e Investigador Afiliado do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC);
Doutor Gilberto Bernardes de Almeida, Professor Auxiliar do Departamento de Engenharia Informática da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (Orientador).
Resumo:
Esta dissertação investiga a transição ontológica e performativa da obra musical, propondo a sua reconfiguração de um artefacto estático numa interface mutável através da mediação computacional inteligente. Historicamente, a tradição musical erudita ocidental privilegia o conceito de obra (werktreue). Este conceito cristaliza a composição como um objeto imutável, preservado pela rigidez da partitura ou do suporte fonográfico. Contudo, as práticas digitais e eletroacústicas contemporâneas reclamam novos paradigmas que respondam à porosidade das fronteiras entre composição, performance e agência tecnológica. Este trabalho propõe, assim, a substituição da partitura fixa pela variedade topológica navegável. Neste sentido, a obra redefine-se como um território dinâmico cuja identidade assenta na fluidez estrutural e não na prescrição notacional. Esta mudança de paradigma fundamenta-se num modelo de navegação contextual. Neste modelo, os limites topológicos do sistema e a intuição gestual do intérprete convergem num diálogo exploratório de descoberta estrutural em tempo real.
A metodologia adotada cruza a investigação experimental com a investigação baseada na prática. Nesse sentido, propomos uma estrutura em um ciclo reflexivo-iterativo que articula o desenvolvimento de software ao ato performativo. A investigação desenvolve-se em dois eixos fundamentais: a representação tonal simbólica e a navegação tímbrica. No primeiro, recorre-se a variational autoencoders (VAEs) para a compressão de polifonia simbólica, tendo-se observado um alinhamento empírico significativo entre os espaços latentes desses modelos e os espaços de fase da Transformada Discreta de Fourier (DFT). Este resultado demonstra que modelos considerados de caixa negra podem revelar, de forma autónoma, princípios estruturais da teoria musical, como o ciclo de quintas. No segundo eixo, utiliza-se a Síntese de Áudio Neural (RAVE) para mapear o espetro tímbrico do saxofone tenor em espaços latentes de alta dimensão, de forma a mediar a relação entre dados abstratos e o gesto musical. Para tal, introduz-se uma taxonomia de movimentos (paralelos, oblíquos e contrários) que preserva a agência do intérprete na navegação destes espaços.
A aplicabilidade prática desta investigação materializa-se nos sistemas BroadcastJSB e Aethra. O primeiro constitui um instrumento topológico que explora a metáfora do rádio para a navegação em tempo real no espaço latente dos corais de J.S. Bach. O segundo consiste numa interface co-criativa para música mista que sintetiza a complexidade multidimensional num único eixo de controlo performativo. As principais contribuições deste trabalho residem na formalização da obra mutável como espaço de possibilidades, na demonstração da inteligibilidade musical em modelos de aprendizagem profunda e na criação de ferramentas e repositórios de dados de acesso aberto às comunidades que investigam performance contemporânea e computação sonora e musical. Em suma, a dissertação sustenta que o futuro da prática musical reside na potencialização da intuição humana através da mediação inteligente, posicionando a interface mutável como o lugar primordial da exploração colaborativa na era digital.








